O sonho recorrente dos artistas de teatro é integrar um grupo estável e fazer com que cada espetáculo seja um desdobramento ou um avanço em relação à obra anterior. Não é fácil conseguir condições materiais para essa estabilidade e a Fraternal Cia de Arte e Malas Artes, que começou seu trabalho em 1994 com o apoio de uma empresa criando espetáculos para um público cativo, já não dispõe desse modesto privilégio. No entanto, prova uma vez mais que, sejam quais forem as condições de produção, a estabilidade se garante quando há densidade no projeto artístico e disciplina na investigação dos meios expressivos. Em oito anos de trabalho, o grupo permaneceu ancorado na idéia de criar um repertório inspirado na tradição da comédia popular brasileira e mobilizou, para a formalização desse projeto, um vasto repertório de temas míticos e históricos, tradições cênicas, plásticas e musicais. Isso não quer dizer que tenha se contentado com o resgate ou com o inventário desse patrimônio cultural. Os espetáculos, com textos escritos por Luis Alberto de Abreu e sempre sob a direção de Ednaldo Freire, combinaram estratos temporais como a farsa romana, o fabulário medieval e o romanceiro popular contemporâneo, extraindo de cada fonte traços estilísticos diferentes e uma constante: na representação popular de todas essas épocas, a faina diária pela sobrevivência é o componente heróico das dramatizações. A utopia que move a ardente imaginação cômica das tramas e das personagens dessas encenações é sempre a harmonia entre o espírito livre e o corpo satisfeito.

Ao longo dessas investigações minuciosas, as soluções cênicas variaram entre a sedutora proliferação de formas e cores moldadas sobre as danças dramáticas, as farsas circenses e festividades religiosas ou sobre o imaginário do teatro barroco, com seu gosto pela máscara e pelos anteparos.

De qualquer forma, sempre à margem dos recursos ilusionistas da cena italiana. No Auto da Paixão e da Alegria, o texto de Abreu propõe de início uma ascese cênica. Desta vez, há apenas quatro personagens em cena, com uma função preponderantemente narrativa. Cabe-lhes reviver, nos moldes uma celebração profana, alguns episódios do ministério e do sacrifício de Cristo. Há uma ausência quase completa de cenografia, as personagens são “investiduras” compostas sob o olhar do público por meio de acessórios do figurino e a transição entre os episódios têm um encadeamento aleatório, nem sempre obediente ao esquema evolutivo dos evangelhos. Como os autos da paixão, que permanecem até hoje no repertório dramático ibérico associado à liturgia, o auto criado pela Cia. de Artes e Malas Artes reproduz a escassez de recursos materiais e abundância imaginativa com que os leigos, desde o século 13 da era cristã, reformularam os textos canônicos aproximando-os da sua experiência cotidiana.

Sutileza – Essa é, aliás, a tese graciosamente embutida no texto de Luis Alberto de Abreu, de modo tão sutil que só ao fim percebemos ter aprendido alguma coisa. Cristo permanece presença viva entre os homens, em primeiro lugar porque os evangelhos traduzem fielmente a integridade da sua semelhança conosco. Na seleção dos episódios extraídos dos escritos testemunhais, como, por exemplo, as bodas de Canaã ou a expulsão dos vendilhões do templo, torna-se clara a intenção de revelar o que “um dia aproximou Deus do sabor da experiência humana”. Na alegria da festa e na ira justa, manifestaram-se brevemente os traços das emoções humanas ligados à figura divina e isso, diga-se de passagem, é tolerado pelo rigor canônico. Por outro lado, a escritura sagrada se aviva porque sugere e permite uma constante atualização. A imaginação dos fiéis não cessa.

Prolonga as histórias, intercala, acrescenta detalhes, imagina milagres sob medida para novos desejos e necessidades e garante, enfim, que a presença divina permeie o presente e seja mais do que rememoração. As personagens dos narradores podem, portanto, enveredar por digressões no tempo e no espaço, acrescentar detalhes convincentes e impregnar de realismo o relato transcendente da salvação do homem. Entre as fábulas de diversos estratos, uma delas jura e garante que há testemunha da peregrinação de Cristo pelo sertão nordestino. Entre a história sagrada e a mítica são difusos os contornos e é perfeitamente possível mesclar aos episódios bíblicos a fábula do homem que vendeu a alma ao diabo a troco de uma boa refeição. Enfim, onde se fizer necessária a esperança da redenção terrena ou eterna, a narrativa se revigora, se adapta, se enriquece com o sal do contingente. Serão mais celebrados entre os pobres os milagres do alimento repartido e do corpo saudável, mas o que este auto propõe é que a fabulação é, por si só, um modo de manter viva a mensagem das sagradas escrituras. O sopro do imaginário profano, irreverente só no modo de expressão, respeita a ética cristã mesmo quando não alcança o seu sentido místico.

A experiência do grupo com diferentes estilos interpretativos, uma vez que ao longo destes anos investigou o repertório cômico do teatro ocidental, frutifica neste espetáculo que exige dos intérpretes ritmo e sensibilidade para mesclar rapidamente o poético, o caricato e a tonalidade serena e explicativa dos trechos situativos. Aiman Hammoud, Edgar Campos, Mirtes Nogueira e Luti Angelelli formam uma trupe de comediantes extraordinários, tão seguros na expressão do delicado cancioneiro (austero, disciplinado e homenageando respeitosamente o metro do auto quinhentista) quanto ágeis e espirituosos nos trechos farsescos. São composições na mesma medida intelectuais e sensoriais, alterando a tonalidade para as diferentes personagens e narrativas. Talvez em função do despojamento visual do espetáculo, que conta com um elenco reduzido, e da intenção narrativa acentuada, as atuações do grupo tornaram-se mais detalhadas e próximas da elocução confidencial. Não há dúvida de que todas sabem que estão lidando com um texto de primeira grandeza, que exige tanto a representação convincente da “fome de carne, de lasanha, de compotas” quanto da “fome infinita da palavra e do espírito”.

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