Diante da mãe, e de vizinhos divididos entre o fascínio e a incredulidade, o migrante Tião, em visita à sua cidadezinha natal no sertão nordestino, tira da mala uma torneira. E orgulhoso e professoral, explica – “Isto é coisa de engenho, de funcionamento, de idéia fina! É só rodar essa peça assim e pronto, sai água. Toda casa tem uma. Às ‘veiz’ até mais de uma. Não tem de buscar água na cacimba. A cacimba vai até a sua casa.” Interpretado por Ali Saleh, Tião é um dos protagonistas da comédia Borandá, da Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes.

Borandá – corruptela de ‘vamos embora andar’ – tem como tema a migração interna no Brasil e estréia hoje para o público no Teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro. Como a Fraternal conta com o apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro, o espetáculo terá entrada grátis durante toda a temporada. Tião Cirilo dos Santos é o protagonista da primeira das três história de Borandá. Ele é um migrante nordestino da década de 50. Chega a São Paulo no auge da construção civil e sua história – com lances ora cômicos, ora melodramáticos, ora patéticos – é semelhante à de muitos outros homens que, como ele, vieram para o ‘sul maravilha’ em busca de uma vida melhor. Numa cena igualmente divertida, anterior à da torneira, vemos o ‘migrante’ que inspirou sua partida (Edgar Campos), exibindo as vantagens de viver na cidade grande.

A segunda saga retrata a história de um personagem mítico, Galatéia (Luti Angelelli), uma espécie de Macunaíma, expulso do campo para a cidade – uma alegoria criada por Abreu, sobre o migrante brasileiro e inspirada em mitos populares como a do cordel ‘pavão misterioso’. Na terceira história, Maria Déia, é a mais ‘colada’ à realidade e arrancou lágrimas da platéia de convidados que assistiu a um ensaio aberto na semana passada. Vivida por Mirtes Nogueira, a personagem Maria Déia foi inspirada no depoimento de uma mulher que passou por diferentes ‘migrações’ e hoje mora no Jardim Ângela, zona sul da cidade. Todas têm como narrador Aiman Hammoud.

Luís Alberto de Abreu assina o texto do espetáculo dirigido por Ednaldo Freire e criado a partir de entrevistas feitas pelos cinco atores com migrantes de várias regiões do Brasil. “Nossa maior preocupação era não cair no lugar-comum uma vez que o tema da migração é muito explorado”, comenta Abreu. Daí os atores terem saído em campo. A idéia era buscar o universal no particular. “Os problemas estruturais já são conhecidos. Queríamos a parcela de humano por trás das estatísticas. Nesse caso, não serviam as pesquisas tradicionais, o mero recolhimento de dados. A entrevista, feita pessoalmente, precisava ser também uma aventura emocional para o ator.”

Cada ator entrevistou um grupo de pessoas diferentes. “A dona Marlene, por exemplo, que inspirou a última saga, abriu mesmo o coração para a Mirtes, algo que talvez não tivesse acontecido diante de toda a trupe”, comenta Ednaldo. Algumas experiências, de diferentes personagens, aparecem acumuladas em Tião Cirilo ou Maria Déia.

Borandá, o resultado desse trabalho talvez cause estranhamento no público cativo da Fraternal estranhe o tom do espetáculo, com mais doses de drama do que nos espetáculos anteriores. “Desde o início de nossa pesquisa sobre a ‘comédia popular brasileira’ tínhamos consciência de que o projeto passaria pelo melodrama. E ele já vem sendo incluído, em alguns momentos, no nosso teatro”, afirma o diretor. “E jamais abandonaremos algumas características, como o tom épico, a uso da narrativa.”

Desde 1993, a Fraternal vem perseguindo o que chama de comédia popular brasileira. Existe uma dramaturgia contemporânea que possa ser assim definida? Quais seriam exatamente as características desse teatro? Quem seriam os herdeiros artísticos de autores que vão de Martins Pena a Ariano Suassuna? Da parceria entre o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, o diretor Ednaldo Freire e os atores da trupe nasceram personagens como Matias Cão e João Teité – parentes bem próximos de João Grilo e Chicó -, protagonistas de algumas da melhores comédias da trupe.

“Até agora, em nossos autos e comédias, abordamos a cultura popular em seus aspectos mais rurais”, diz Ednaldo. “Um olhar nostálgico e quase ingênuo sobre o passado.” Assim, voltar o olhar para o migrante significa, no trabalho da trupe, uma espécie de ritual de passagem. “Há muito estamos interessados na ‘morte do caipira’, na adaptação da cultura rural na cidade, onde sofre ainda a interferência dos meios de comunicação de massa.” O próximo passo da Fraternal seria a pesquisa do caldo de cultura resultante da migração na urbe paulistana, um espaço urbano superpovoado, inchado artificialmente, sem planejamento.

“Seria muito audacioso de nossa parte tentar entender de uma só vez a cultura resultante do amálgama dessa migração diversa”, argumenta Freire.

“Daí tentar primeiro abordar esse momento de passagem. E depois seguir adiante”, diz fiel ao estilo ‘borandá’ da Fraternal, criada em 1981.

 

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