Em ‘Borandá’ , a Fraternal Cia.aborda o tema com bom equilíbrio entre ficção e realidade

O tema da migração, tão freqüente na arte brasileira, dispensaria justificativa. Ainda assim, como introdução à narrativa do seu espetáculo a Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes explica de modo neutro e sereno o motivo da persistência desse assunto: “O brasileiro é um povo em movimento.

Sempre foi. As razões podem ser muitas, mas existe uma principal. Na vastidão territorial do Brasil a regra geral é que o povo brasileiro nunca teve terra sua. E se teve seu pequeno pedaço de chão, não teve meios para dele tirar sua subsistência, nem meios para defendê-lo.”

Isto posto, a tarefa a que se propõe o grupo é a de se comunicar com o público sem insistir nos procedimentos que já foram recorrentes e eficientes no trato com a questão migratória: a denúncia do problema, o apelo à consciência social dos espectadores para que se mobilizem no sentido de construir um país onde as pessoas possam viver, se o desejarem, no lugar onde nasceram e a exortação ao migrante – ou aos pobres de um modo geral – para que se tornem agentes em vez de vítimas da história. A literatura, a música, o teatro e o cinema fizeram e fazem, há um século, uma mistura em doses diferentes de todas essas estratégias.

A forma narrativa que o grupo domina com excepcional habilidade permitiu, neste espetáculo, uma combinação original entre o documental e o dramático.

Os narradores, ao assumir as personagens de três diferentes “sagas” migratórias controlam a densidade emocional das cenas. Além de informar sobre os conflitos que, desde a migração até o assentamento no lugar de destino, afetam a vida das personagens em movimento, o mestre Abu, autoridade maior em cena, restringe as exibições de afetividade. O recurso é, na verdade, desenhar de modo indireto um caráter coletivo que vai se definindo ao longo das três narrativas do espetáculo. Do mesmo modo que o sertanejo de Euclides da Cunha, o migrante destas histórias é “um forte”.

Não se trata, contudo, da força peculiar aos indivíduos sobrevivendo a catástrofes que dizimam a maioria da espécie. São antes fortes porque resistem à perda da memória da origem, porque não recalcam o sentimento do desterro e, sobretudo porque mantêm a noção crítica da diferença entre os dois mundos, o que deixou e aquele em que vive para o trabalho. Utilizando como parte da matéria ficcional depoimentos desses paulistanos à força, o texto de Luís Alberto de Abreu, na primeira e na última história, imita a tonalidade cerimoniosa dos depoentes. Discreto ao exprimir sentimentos pessoais, e cheio de recursos de estilo ao rememorar episódios e paisagens da memória, o protagonista da primeira narrativa é um homem “sem segredo guardado”. Pode-se dizer que a mesma sugestão de realismo, de observação neutra, preside à narrativa da terceira e última saga do espetáculo.

Entre os dois relatos de experiências transfigurados pelo trabalho de dramaturgia intercala-se uma saga grotesca capitaneada por um parente próximo de Macunaíma. É feita com verve, presença de espírito dos intérpretes que transitam entre a narração e a “encarnação” das figuras grotescas e ajusta-se certamente à reivindicação dos comediantes-personagens de que, de vez em quando, é preciso alegrar o público com alegorias e outras figuras usuais na trama de arte popular. Mas na economia geral do espetáculo a fábula cria uma espécie de hiato, interrompendo a ligação necessária (na medida em que recriam a experiência masculina e a feminina) entre as histórias de “Tião” e “Maria Déia”. O “alívio cômico” é uma prezada tradição do teatro épico porque permite a intromissão da crítica e da autocrítica.

Mas, neste caso, esses elementos já estão presentes ao longo do espetáculo, veiculados pela voz dos narradores que intercalam entre os episódios de cada saga o humor e a crítica. Nesse sentido, com a função de alívio cômico, a história da Galatea parece-nos redundante. É muito boa a saga do pícaro tolo, mas talvez não seja esse o modo ideal de apresentá-la, entremeando narrativas que nos parecem contíguas.

Ao longo dos anos a Fraternal vem diminuindo o contingente e emagrecendo o material cenográfico. Em compensação refinou e sintetizou a potência dos recursos de que dispõe. Desta vez a direção de Ednaldo Freire embeleza as cenas por meio de agrupamentos, de nuances de luz, de uma atenção formalista aos objetos e aos movimentos dos intérpretes. O espetáculo é sedutor sem que por isso se sacrifique a crítica ou a intelecção. Na complexa trama do teatro épico, onde é preciso que os atores saibam filosofar com clareza, indicar espaço e tempo, transitar por várias personagens e estilos, o desempenho de Aiman Hammoud, Edgar Campos, Luti Angelelle, Mirtes Nogueira e Ali Saleh é de talentosos veteranos na arte de fingir que fingem.

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