Memória das coisas

 

A peça se inicia com um personagem de caráter cômico que tem como função organizar, à vista do público, um pouco à maneira de Pirandello, uma representação teatral. Para isso conta investigar a memória de um homem, de aproximadamente cinqüenta anos, que uma noite, ao passar sob o arco de pedra, assustou-se ao sentir eclodir em sua memória personagens de que não se lembrava. Tais personagens se corporificam cenicamente e põem-se a narrar e viver fragmentos de suas lembranças. Inquirido, o homem nega que tais personagens façam parte de sua vida ao mesmo tempo em que vasculha sua própria memória e revela acontecimentos de sua própria existência. Ao final, contrapõem-se os personagens da memória do homem com os personagens que pertencem ao arco de pedra. É esse o material que o personagem cômico, como um diretor ao vivo, deve organizar e transformar em espetáculo.

 

A memória que se agrega aos objetos

 

Um objeto é mais que um objeto. É também os valores simbólicos e lembranças históricas que as pessoas agregam a ele. Um objeto pode também ser um código de acesso à memória. É nesse sentido – a investigação sobre outros valores que se ocultam nos objetos – que o projeto Memória das Coisas se insere.

 

Idealizado pela Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes, o projeto dispôs-se a investigar marcos (monumentos, construções, ruínas) presentes na cidade de São Paulo e, a partir deles, reconstruir elementos históricos a ele relacionados e construir uma ficção a partir desses elementos. Para efeito da pesquisa, a importância desses marcos não seria dada pela historiografia oficial, mas pelo testemunho humano que tais marcos poderiam representar. Um muro corroído pelo tempo numa rua do Brás, por exemplo, poderia ter mais importância do que um sobrado do Bom Retiro ou um palacete dos barões do café no Ipiranga, se tal muro tivesse sido “testemunha” de acontecimentos marcantes “greves anarquistas” do início do século XX, dos bombardeios do governo federal na revolução paulista de 1924 ou do movimento migratório, por exemplo, e que possibilitasse, a partir daí, o desenvolvimento da matéria ficcional.

 

Após pesquisa, a escolha recaiu sobre o arco de pedra situado na Avenida Tiradentes, em São Paulo. É um estranho e imponente objeto que parece deslocado entre as modernas arquiteturas do metrô Tiradentes e instalações bancárias.

 

O arco foi o pórtico de entrada do antigo presídio Tiradentes, construído em 1852 com o nome de Casa de Correção de São Paulo, a edificação destinada primeiramente à detenção de escravos abrigou presos políticos e presos comuns até sua demolição no início da década de 1970, restante apenas o referido arco de pedra. Ali estiveram presos famosos como Gino Meneghetti, Caio Prado Junior, Monteiro Lobato além de inúmeros detidos pela polícia política na época da guerrilha urbana do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970.

 

Dado à complexidade e extensão de material histórico que o arco de pedra indicava resolveu-se restringir, por um lado, a ação dramática a um curto período, pouco antes da demolição do presídio. Por outro lado, não houve interesse num levantamento histórico dos acontecimentos da época e sim aproveitar personagens baseados na dura realidade do ambiente prisional para a discussão da importância da memória.

 

Neste trabalho o grupo aprofunda radicalmente o aprimoramento de alguns elementos já buscados em outras montagens como a narrativa épica, a quebra da quarta parede e o uso cênico do espacial. A montagem inclui o público naquilo que chamamos de espaço absoluto, onde atores, cenografia e platéia se misturam formando um grande corpo celebrativo.

 

Ficha Técnica

 

Elenco: Aiman Hammoud; Edgar Campos; Mirtes Nogueira e Kalil Jabbour.

Direção: Ednaldo Freire

Autor: Luís Alberto de Abreu

Cenário, figurinos e adereços: Luiz Augusto dos Santos e Fábio Lusvarghi

Trilha Original: Kalau

Preparação Corporal: Vivien Buckup

Preparação vocal: Carlos Zimbher