Masteclé

Matéria da estréia 

"Masteclé - Tratado Geral da Comédia", uma hilária conferência sobre os fundamentos do riso, de Luiz Alberto Abreu com Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes: "Pagarás com Tua Alma", um dramalhão circese e dirigido "para valer" por Gustavo Machado; "Vênus Castigadora do Amazonas", um sarau literário-poético num planeta destruído por hecatombe nuclear, e "Sujeito Barrado", criação e direção de Márcio Tadeu, inspirado nem estudo de Lacan sobre "Hamlet", são os quatro espetáculos que estréiam esta semana no CCSP que, por causa do racionamento de energia, mudará todo o horário de sua progra,ação a partir da próxima terça-feira

 

Divulgação

‘Masteclé’, de Luis Alberto de Abreu, contrapõe a visão erudita à prática das comédias populares

 

 

BETH NESPOLI

'MASTECLÉ'

Um projeto ambicioso uniu o escritor Luis Alberto de Abreu e a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes, dirigida por Ednaldo Freire:

retomar a vertente da comédia popular, seguindo o caminho trilhado por Ariano Suassuna, Artur de Azevedo e Martins Pena.

Peças como Burundanga, O Anel de Magalão, Sacra Folia e O Parturião nasceram dentro do projeto Comédia Popular Brasileira, que recebeu o Prêmio Especial da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi também indicado para o Prêmio Shell. Dirigidas por Freire com a Fraternal, essas peças de Abreu, além de divertidíssimas, incorporaram ao tradicional repertório de personagens como Briguelo, da Commedia Del'Arte; Sganarello, de Molière; o Chicó e o João Grilo de Suassuna, novos tipos como o mineirinho esfomeado João Teité, a negra Benedita, a megera Boracéia e o autoritário Coronel Marruá.

Quem ainda não conhece esses personagens - e principalmente quem viu e aplaudiu os espetáculos anteriores - não pode deixar de ver Masteclé, Tratado Geral da Comédia, de Luis Alberto de Abreu, que estréia na sexta-feira no CCSP, sob direção de Freire, com a Fraternal. O título é uma brincadeira com a expressão Master Class e o ponto de partida é realmente uma aula sobre os fundamentos da comédia popular.

Um professor universitário, interpretado por Aiman Hammoud, é o titular da palestra. Antes mesmo de iniciá-la, avisa que desde a juventude pesquisa a comédia "para melhor conhecer seus vícios e seu potencial corruptor de costumes". Mas adverte não gostar de comédia, não ter senso de humor e que o riso, para ele, é apens um objeto de estudo, não tendo pela comédia o apreço que lhe devota "o poviléu, a plebe, o povinho ordinário das ruas".

Na verdade, Abreu faz citação ao palestrante de Os Malefícios do Tabaco, de Chekhov, um homem obrigado pela mulher a fazer uma conferência. "Há muitas referências a outras peças e autores, afinal, a paródia faz parte dos fundamentos da comédia." Entre elas, Seis Personagens em Busca de um Autor, de Pirandello, uma vez que os personagens João Teité (Ali Saleh), Benedita e Boracéia (ambas vividas por Mirtes Nogueira) interrompem a palestra e discutem com o conferencista.

A peça contrapõe a visão erudita da comédia, por meio das teorias, como a de Mikhail Baktin e Luís da Câmara Cascudo - que fundamentaram o projeto - com a ação dos personagens, que "traduzem" cenicamente as teorias do palestrante, ainda que contra sua vontade. "O que provoca o riso?", pergunta o acadêmico. Segue-se uma requintada - e claríssima para o público - explicação, infelizmente, para o acadêmico, sempre interrompida pelos personagens.

Entre eles, novas criaturas de Abreu, como Bocarrão (Edgard Campos), um abominável zelador do teatro, um daqueles burocratas sempre desejosos de terminar mais cedo o expediente, irritado com o barulho e a indisciplina de público e artistas. "Essa figura autoritária é bastante conhecida dos artistas, encontrável em muitos teatros", comenta Abreu.

Bocarrão irrita-se com alguém que ri mais alto na platéia e ameaça tirá-lo a força do teatro. "Ele não sabe, mas é um personagem cômico", observa o acadêmico. "Ninguém aqui acredita realmente que ele seja capaz de fazer o que promete. Rimos disso." Mas ao ser definido como um tolo, cuja raiva é ilógica, Bocarrão rebela-se e volta sua irritação também contra o acadêmico, cuja palestra quer ver terminada o mais rápido possível.

A peça proporciona ao público um verdadeiro passeio histórico pela comédia, trazendo ao palco até mesmo Bica-Aberta, mulher do gigante Garganua, mãe do personagem Pantagruel, protagonista da comédia homônima de François Rabelais. Ao sair do teatro, além de certamente ter dado boas gargalhadas, o espectador poderá ainda se orgulhar de conhecer a "topografia dos gêneros" do pesquisador Bakhtin, "explicada" pelo acadêmico.

"Masteclé passa em revista toda a investigação realizada por Abreu para o projeto Comédia Popular Brasileira", diz Freire. E a Fraternal já prepara um novo espetáculo, também com texto de Abreu, Stultífera Navis, com previsão de estréia para setembro, graças ao apoio recebido do governo do Estado de São Paulo, por meio do Prêmio Estímulo Flávio Rangel. Felizmente, para o teatro brasileiro, a renitente Fraternal decidiu seguir em frente, mesmo depois de perder o apoio da multinacional que vinha patrocinando a companhia.

MASTECLÉ – TRATADO GERAL DA COMÉDIA

 

RELEASE

 

 

Masteclé é um espetáculo cômico, cujo protagonista é a própria comédia. Discute e reúne os fundamentos que orientaram o Projeto de Comédia Popular Brasileira, que em sete anos de existência já encenou seis espetáculos, publicou uma tetralogia de textos encenados pela Fraternal Cia de Arte e Malas-Artes, promoveu cursos e palestras com objetivo de recriar e retrabalhar o universo cômico popular. O espetáculo pretende mostrar o resultado prático, as investigações e conquistas alcançadas ao longo desses anos. Uma síntese, do que seria a proposta de uma comédia épica, não só do ponto de vista dramatúrgico, como da encenação.

O fundamento dessa proposta cria um sistema interpretativo que vai para a cena emitindo junto com personagem narrador, uma série combinações entre representação e narrativa que integrados a fábula permitem ao público participar do espetáculo com sua imaginação ativa, concluindo o que chamamos de comédia épica.

Masteclé, corruptela e aportuguesamento da expressão inglesa “master class”, utiliza-se da paródia, elemento fundamental na cultura cômica, sobre os fundamentos da comédia. Reflexões de Aristóteles, Bergson, Batkhin e outros estudiosos do fenômeno do riso, imagens e trechos de Rabelais e outros autores completam este caldeirão cômico e gostoso chamado MASTECLÉ. O absurdo, o realismo e a farsa compõe também a linguagem da encenação desta aula espetáculo ou aula conferência ou espetáculo cômico ou simplesmente, MASTECLÉ.

 

 

SINOPSE

 

 

Professor Acadêmico profere conferência sobre tratado geral da comédia, quando é interrompido por personagens cômicos e um nervoso zelador de teatro. Tais interrupções acontecem com a encenação de várias cenas extraídas das peças: Iepe, Burundanga, O Anel de Magalão, Sacra Folias, além de outras criadas especialmente.

A conferência é uma verdadeira aula sobre a comédia onde o palestrante discorre sobre alguns conceitos tirados de Aristóteles, Bergson, Pirandello, Francois Rabelais e principalmente a topografia dos gêneros de Mikhail Batkhin.

O elenco é composto por Aiman Hammoud, Ali Saleh, Edgard Campos e Mirtes Nogueira. O texto de Luis Alberto de Abreu, direção de Ednaldo Freire, cenários e figurinos de Luis Augusto e trilha sonora de Kalau.