Peça mais recente do dramaturgo Luís Alberto Abreu, de Ribeirão Pires, chega ao Paulo Eiró

Embora pernambucano, criado em Ribeirão Pires desde os 06 anos e diretor consumado em palcos paulistanos, Ednaldo Freire pronuncia com entusiasmo e a prosódia de um autêntico caipira o nome da nova peça que estréia hoje, junto à Fraternal Companhia de Arte e Malas- artes, e escrita por Luís Alberto de Abreu, dramaturgo de Ribeirão Pires: ” Eh, Turtuvia! “.

O diretor carrega no “erre” o acentua o “i” de forma a não deixar dúvidas que a pronuncia correta da expressão, que nos rincões rurais significa perplexidade, é “turtuvia”. A estréia, com direito a quentão para o público, e a temporada ocupam o Teatro Paulo Eiró, em são Paulo, até Outubro.

“Eh, Turtuvia!” é a 12ª montagem do projeto de comédia popular brasileira desenvolvido desde 1993 pela Fraternal com Freire e Abreu. É também a terceira peça do ciclo de autos da companhia, iniciado com Sacra Folia e Auto da Paixão e da Alegria. ” E o ciclo das festas, começando no Natal com Sacra Folia, passando pela Páscoa com o Auto da Paixão, e agora um auto caipira”. Diz Freire.

A essência de criação repete processos anteriores do grupo. Finalizado o texto de Abreu, a companhia é despachada para algum recanto do país em que pode pesquisar trajetos e sotaques a serem reproduzidos nas peças. Desta vez, com a inclinação para o caipira, o destino foi o Vale do Paraíba (região leste de São Paulo). “O texto não nasce da pesquisa, não é resultado dela, que serve mais para buscar sonoridade, musicalidade para a interpretação”. Freire revela mais. “Não é pretensão, mas a Fraternal busca uma dramaturgia realmente brasileira, para além dos métodos stanislavskiano e grotowskiano, tendo sempre uma referência a cultura popular, que é um vasto caudal ao passar pelo folclore, o circo, o teatro de revista, o vendedor de raiz em praça pública, etc.”.

Eis o elixir ideológico da Fraternal: a redescoberta de uma cultura pura, sem interferência de festas externas, “de Halloweens”, e que deve ser preservada. Em Eh, Turtuvia!, quatro caboclos contam causos passados no campo e neles se confundem profano e sagrado. Pagão e cristão, no texto, se encontram durante as festas juninas, período de colheita em que o homem pede licença para trazer as divindades à Terra. Santo Antônio, se não descola casamento para a solteirona, é deixado de ponta-cabeça; São José, caso falhe no envio de chuvas para fomentar o plantio, é expulso de seu trono na cidade; e o fantasma de um “falecido”, que não deixa um novo pretendente “reinaugurar” sua viúva. A Fraternal não pretende rebaixar os santos, mas os coloca no balcão de reclamações da caipirada.