Borandá dá seqüência a partir desta quinta-feira no Teatro Paulo Eiró, em São Paulo, ao projeto Comédia Popular Brasileira, criado pelo dramaturgo Luís Alberto de Abreu, de Ribeirão Pires, pelo diretor Ednaldo Freire e pela Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes. A peça aborda a questão do migrante – “borandá” é uma corruptela para “vamos embora andar”.

Abreu, Freire e os cinco atores da Fraternal – a comédia foi construída dentro do processo colaborativo – colocam em cena três sagas, três migrantes que se estabeleceram em São Paulo. Na primeira, Tião (Ali Saleh) é um migrante comum que trabalha na construção civil. A segunda, uma fábula, apresenta Galatéia (Luti Angelelli), nascido em Raso do Gurguéu, um lugarejo esquisito. A terceira, de Maria Déia (Mirtes Nogueira), enfoca a experiência humana.

Freire conta que, a princípio, a idéia era desenvolver apenas a saga “meio macunaímica” de Galatéa e “fazer uma alegoria do migrante”. Mas as entrevistas realizadas com migrantes na periferia da zona sul paulistana, especialmente a que inspirou Maria Déia, alteraram os planos. “É um material muito rico, tínhamos assunto para mais uma peça”, diz. Abreu dá ao texto um tratamento ao mesmo tempo cômico e poético.

Os cinco saltimbancos de Auto da Paixão e da Alegria, a montagem anterior da Fraternal – entre eles Abu (Aimam Hammoud) e Amoz (Edgar Campos) –, narram e representam as histórias. Borandá se apóia em uma estrutura épica narrativa. O cenário é limpo. “Queremos o ator desprovido de grandes cenografias decorativas”, afirma Freire.

A primeira saga é mais genérica. O grande problema de Tião é a solidão. As intervenções de Abu na encenação têm a função de impedir que a história caia no melodrama. “São personagens simples, sem momentos trágicos. Não queremos forçar o melodrama. Abu mantém o fluxo dramático desejado”, diz Abreu.

A segunda saga, uma alegoria fantástica, carrega na comicidade e remete às formas tradicionais populares, como os cordéis recheados de figuras míticas. “Para Galatéa, a cidade grande é uma esfinge a ser decifrada”, afirma Freire. Na terceira, o tom dramático é maior.

A questão do trabalho atravessa o espetáculo. “Quando se toca na questão do migrante, nas causas estruturais do fenômeno da migração, existe a preocupação com o trabalho. Mas contemplamos também as causas de ordem pessoal, humana”, diz Freire.

Borandá se revela otimista. “As pessoas acham que vencer na vida é ter dinheiro, mas as pesquisas indicaram que os migrantes se sentem vitoriosos (mesmo sem terem enriquecido). Eles continuam sendo fortes”, afirma Freire. Para Abreu, sobreviver em condições hostis, tanto em aspectos humanos como sociológicos, já é uma superação enorme, heróica: “A maioria dos migrantes luta para manter valores, para não perder vínculos. Maria Déia é isso”.

 

 

 

 

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