Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes espelha as sagas familiares de retirantes em “Borandá”

Depois de encenar um auto da paixão à sua moda, a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes apresenta um auto do migrante. “Borandá”, título de sonoridade indígena, mas contração do simples “embora andar”, reúne três sagas familiares de migrantes que têm em comum a sobrevivência em São Paulo.

A nova peça de Luís Alberto de Abreu (o mesmo de “O Livro de Jó”, encenado pelo Teatro da Vertigem) foi escrita a partir da pesquisa com moradores do entorno do teatro Paulo Eiró, na zona sul paulistana (bairros de Santo Amaro, Alto da Boa Vista, Jardim Ângela etc).

Uma das sagas, “Maria Déia”, é inspirada na história de uma mulher que ziguezagueou pela vida nos Estados do Paraná, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

Éuma trajetória marcada por casamento tumultuado, a separação e a fuga para salvaguardar os filhos. A história de resistência de Maria Déia, a personagem, lembra a Mãe Coragem de Brecht ou a Romana de Gianfrancesco Guarnieri (“Eles Não Usam Black-Tie”).

“Buscamos a experiência humana desses migrantes, não fazemos análise sociológica”, afirma o diretor Ednaldo Freire, 54. Apesar da densidade do tema, ele define “Borandá” como uma “espécie de drama risível”, junção do melodrama com a comédia.

“Maria Déia” é precedida das sagas batizadas “Tião” e “Galatéia”. A primeira parte trata de Tião Cirilo dos Santos, caboclo que trocou o Nordeste pelo “sertão da cidade” -ao qual tenta se adaptar, não de todo, às culturas e solidões do outro.

Em “Galatéia”, miolo da peça, Abreu se descola propriamente dos depoimentos para retomar a trajetória mítica dos heróis cômicos populares, como seus recorrentes João Teité e Matias Cão no repertório da Fraternal, sempre em parceria com Freire.

Aqui, João de Galatéia é o rapaz que deixa o berço rural rumo ao mundo urbano; vai atrás de algo que lhe foi retirado (curiosamente, Galatéia é também o nome dado a um novo satélite do planeta Netuno, descoberto em 1989).

Teatro popular

Formada há dez anos, mas com lastros no teatro dos anos 80 na região do ABC (como o grupo Mambembe, do diretor e dramaturgo Carlos Alberto Soffredini), a Fraternal é caracterizada por investigação artística que busca referências no teatro popular.

“O popular tem mais erudição do que se imagina, mas costuma ser rebaixado, sobretudo pela mídia”, diz Freire, ele também um migrante pernambucano cuja família chegou a São Paulo nos anos 50 a bordo de um pau-de-arara, o caminhão que transporta retirantes na carroceria.

Em “Borandá”, os figurinos são de Luiz Augusto dos Santos; a trilha sonora, de Kalau; e a preparação corporal, de Julião.

Fraternal cruza o melodrama e a comédia

DA REPORTAGEM LOCAL

Em “Borandá”, a Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes radicaliza o seu Projeto de Pesquisa da Comédia Popular Brasileira, lançado em 1993. O espetáculo enverga para o drama, mais especificamente para o melodrama.

“Não temos preconceito com gêneros. A comédia popular pressupõe uma tragicidade”, afirma Ednaldo Freire.

Esse auto do migrante, como define seu autor, Luís Alberto de Abreu, deve surpreender o público que acompanha a Fraternal. As sagas familiares “Tião” e “Maria Déia” são de extração mais dramática, uma subversão da comédia decorrida da própria pesquisa de campo.

“Só a comédia não daria conta”, reconhece Abreu, 51. Inicialmente, a dramaturgia estava centrada na fábula mítica “Galatéia”, mas os depoimentos mudaram os rumos do texto.

O atalho não é novidade para a companhia. Freire lembra que alguns espetáculos traziam “pausas dramáticas” em plena comédia, caso de “Sacra Folia”, no qual uma das passagens remetia à chacina da Candelária (93).

“Borandá”, no entanto, quer preservar a estrutura narrativa em favor de um painel épico de homens e mulheres que pisam mundos diferentes e, ao mesmo tempo, não são de lugar nenhum.

Cinco atores-saltimbancos revezam a voz do narrador e os papéis, por vezes dirigindo-se diretamente à platéia, à la Brecht, ignoram o que se entende no teatro por “quarta parede”.

“Em meio a tudo isso, há o resgate da palavra em detrimento do espetacular”, afirma o ator Luti Angelelli, 37.

A Fraternal é uma das companhias contempladas pelo Programa de Fomento ao Teatro na Cidade de São Paulo. (VS)