Auto da Paixão e da Alegria mescla o sagrado e o profano

A ambição de seguir a trilha aberta por Martins Pena, Arthur Azevedo e Ariano Suassuana foi o ponto de partida para a parceria entre o dramaturgo Luis Alberto de Abreu e a Companhia de Artes e Malasartes dirigida por Ednaldo Freire. Juntos, autor, diretor e atores vêm desenvolvendo o projeto Comédia Popular Brasileira, cujo objetivo é retomar, atualizar e aprofundar uma vertente cômica universal que brota da cultura popular.

Assim nasceu a dupla Matias Cão e João Teité, parentes de outros tipos cômicos como João Grilo e Chicó, Arlecchino e Brighela, dois mortos de fome metidos a espertos, a todo momento tramando uma artimanha para enganar os poderosos e encher a pança – artimanha essa sempre malsucedida. Quem já gargalhou com suas peripécias em peças como Burundunga, O Anel de Magalão, Sacra Folia e O Parturião, vai reencontrá-los agora no Auto da Paixão e da Alegria, que estréia hoje no Teatro Paulo Eiró.

“Com este auto, a companhia retoma uma linha de pesquisa, dentro dessa vertente de comédia popular, que promove o encontro entre o sagrado e profano, o sublime e o prosaico. Ao criarmos Sacra Folia, em 1996, nossa intenção era ter no repertório autos para vários momentos festivos, mas a perda do patrocínio da Siemens impediu a continuidade desse processo”, diz Freire. Sacra Folia é um auto de Natal e, como tal, conta o nascimento de Jesus, com algumas ‘liberdades’. O anjo Gabriel encarrega João Teité e Matias Cão de guiar a Sagrada Família que, em sua fuga pelo Egito, perdeu-se e acabou em Belém, do Pará. Obviamente ambos aprontam mil trapalhadas tentando tirar proveito da situação.

Em O Auto da Paixão e da Alegria, como o título indica, quatro saltimbancos narram a morte e ressurreição de Cristo. Nessa empreitada, Abreu e Freire contam com a cumplicidade do público, ou seja, com a retenção da história bíblica no imaginário popular. Isso porque a vida de Cristo é narrada do ponto de vista de João Teité e Matias Cão, candidatos a 13.º e 14.º apóstolos de Jesus. Evidentemente eles resolvem seguir o Nazareno com objetivos nada religiosos.

Juntos, decidem propor a Jesus um ‘negócio’: a criação de uma seita religiosa para arrecadar dinheiro dos fiéis, fundada na promessa de milagres como a transformação de água em vinho. “O azar deles é que encontram Jesus justamente no dia da expulsão dos vendilhões do templo”, conta Freire.

“Obviamente percebem que não é um bom dia para tais propostas e resolvem segui-lo na espera de melhor ocasião.”

Apesar da liberdade com que a história é narrada, Freire avisa que não há desrespeito aos cânones religiosos. “Um dos quatro saltimbancos, por exemplo, protesta veementemente contra a versão dos dois e não admite que se brinque com os cânones religiosos. Ele é o contraponto para que a história oficial também esteja em cena.”

Na forma de interpretar o grupo aprofunda sua pesquisa de linguagem que consiste em mesclar narrativa e linguagem dramática. “A gente vem aperfeiçoando essa linha e tomando muito cuidado para evitar redudâncias. Se uma cena é narrada, não precisa ser também encenada. É como o sujeito que conta uma piada. Ela vai narrando, descrevendo ambientes e, num momento ou outro, cria um diálogo, um sotaque, um trejeito, apela para a interpretação.”

Entre as cenas reconstituídas no palco estão a Santa Ceia, a multiplicação de pães e peixes e a entrada triunfal em Jerusalém, o ‘Domingo de Ramos’. A Santa Ceia acaba se tornando uma grande decepção para Matias Cão e João Teité. “Eles estavam ansiosos para participar dessa parte da história, pensando, claro, em encher a pança, mas acharam tudo muito mixuruca”, avisa Freire. Já a entrada em Jerusalém dá ensejo ao resgate de um folguedo da cultura popular brasileira. “O burro sobre o qual Jesus vem montado se transforma numa burrica de bumba-meu-boi. E para levarmos ao palco esse rito popular foi fundamental a contribuição de Deise Alves, integrante do grupo Brincante, do Antonio Nóbrega, responsável pela pesquisa e preparação corporal.”

CONHEÇA TAMBÉM A FRATERNAL NAS REDES SOCIAIS