Com a comédia épica narrativa Nau dos Loucos – Stultífera Navis, do dramaturgo Luís Alberto de Abreu e direção de Ednaldo Freire, a Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes comemora não só dez anos de carreira, como elege no lugar da ilustre dupla de personagens JoãoTeité e Matias Cão (O Parturião, Burundanga, O Anel de Magalão e Sacra Folia) uma inusitada parceria nórdica-indígena. Peter Askalander, norueguês imperialista, e Pedro Lacrau, índio ciclotímico e desmemoriado, vivem sua saga cômica a bordo da mítica nau dos loucos. A peça é o segundo espetáculo da Fraternal dentro do projeto Cidadania em Cena, da Secretaria Municipal de Cultura.

“Que adianta ser mentalmente são se o mundo perdeu o sentido?”, é a indagação que ecoa na peça. Sob ótica contemporânea, o mito da nau dos loucos simboliza as ingerências que vingam num planeta onde tudo é permitido. O enredo, narrado e dramatizado por cinco atores, começa quando as embarcações expedicionárias de Peter e Lacrau se chocam e afundam. Ao se salvarem, os comandantes das naus cumprem uma saga espetacular por terras sangradas por guerras, saques e paixões mal resolvidas, até que decidem trocar a dureza oferecida pela civilização ensandecida pela atraente “stultífera navis”, a nau que segundo a mitologia escandinava da Idade Média, descia o Rio Reno recolhendo os loucos das aldeias. Na nova embarcação, deparam com personagens de diversas culturas, mas com pelo menos um ponto em comum: o mundo para eles está às avessas, é irracional e exagerado, tendendo a ganhar proporções assustadoras.

O espetáculo é fertilizado por diferentes tempos narrativos e personagens que surgem como peças de um grande mosaico. Até Deus dá o ar de sua graça na nave que varre os loucos. Sem oferecer soluções, mas mostrando o “mundo como ele é”, a peça constata no personagem Lacrau o resumo do homem brasileiro. “Sem memória e sem passado, mergulhado num eterno presente”, sintetiza o ator Edgar Campos. As composições e a direção musical são de Fernando Sardo e a iluminação, de Newton Saiki.

O ano de 2002 representa para a Fraternal a responsabilidade de atuar em várias frentes teatrais, concentradas no Paulo Eiró, um simpático e antigo teatro de bairro, com platéia para 600 pessoas. Além de novas montagens a preços populares, a companhia vai promover oficinas de cenografia, interpretação, dramaturgia e preparação corporal e oferecer o teatro às quintas-feiras a grupos artísticos do bairro e entorno.

“A meta é dialogar com os grupos amadores de Santo Amaro e da zona sul, oferecer o espaço e formatar em conjunto um projeto para as diversas manifestações artísticas”, espera o diretor Ednaldo Freire. Nau dos Loucos, que recebeu o Prêmio Flávio Rangel em 2001 (da Secretaria de Cultura do Estado), reafirma sua integração ao projeto de comédia popular com a utilização de linguagem cômica, simples, com cenários e figurinos de aspecto e criatividade populares.

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