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As Três Graças

Da arte de contar a dor com graça


O Estado de São Paulo - Caderno 2 - Beth Néspoli - sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Grupo Ganha reforço de atrizes para criar histórias de mulheres em As Três Graças.

Sob direção de Ednaldo Freire estréia hoje mais um espetáculo da Fraternal Cia. escrito por Luís Alberto de Abreu - As Três Graças. O elenco, de atores já conhecidos como Aiman Hammoud, Edgar Campos e Fernando Paz, ganhou o reforço de Marcio Castro e de Isadora Petrin, Márcia de Oliveira e Luciana Viacava, atrizes que agora fazem companhia a antes solitária mulher Mirtes Nogueira. Isso porque o desejo era a criação de uma comédia sobre o universo feminino(leia abaixo). Mas a julgar pelo ensaio visto pelo Estado, o público que for ao Teatro Escola Célia Helena - sim, a temporada será no teatro da escola, cedido a esses experientes profissionais - vai rir, mas também vai derramar lágrimas.

"Desde que fizemos Borandá, peça na qual falávamos de imigrantes e foi criada a partir de depoimentos, percebemos que o material colhido entre as mulheres era forte; ficamos com vontade de trabalhar sobre o feminino", diz Freire. Daí, novas entrevistas foram feitas, só com mulheres. Mas suas histórias pouco tinham de cômicas.

"A pesquisa privilegiou cortiços; são filhas abandonadas, mulheres alcoólatras, mas com muita garra e esperança".

O humor fica mesmo por conta da 'graça' com que são contadas por esse grupo extremamente criativo, capaz de rir, antes de mais nada, de suas próprias dificuldades. Assim, por exemplo, Edgar Campos interpreta um personagem que supostamente 'não vingou' no processo de criação em sala de ensaio. Ele é o pai da mulher da primeira história, interpretada por Luciana, a que tem poucas memórias - uma delas contraditoriamente de algo que não viveu. O tempo todo ele tenta interrompê-la, os outros atores se irritam, um deles explica ao público. "Isso acontece muito numa sala de ensaio. Personagens mal-ajambrados, incoerentes, que não chegam a ganhar dimensão humana e, então, ficam num limbo, num vácuo, meio cômicos, meio dramáticos, inconscistentes".

Claro que é uma bricadeira pirandelliana. Se está ali, é porque ele ganhou consistência para além da piada. E vai comover com sua dor ao explicar por que surrava a filha.

Se o processo de criação foi colaborativo, no qual as cenas são criadas pelos próprios atores, o texto tem a assinatura poética de Abreu. "A gente mostrou cenas e ele trouxe o texto, mas ele é um artesão das palavras, um poeta do teatro, tudo ganha outra dimensão", observa Freie.

Mas se as palavras encantam, também os jogos cênicos deliciam o público, sobretudo na segunda história, a mais leve, envolvendo o 'par romântico' vivido por Márcia de Oliveira e Fernando Paz. Com a participação de todos, é literalmente feito de música o encontro apaixonado da moça pobre e ingênua com o músico malandro que decide fazer uma turnê às vésperas do casamento, para o prazer das linguarudas vizinhas (e do público) que apostam no seu sumiço.

A doçura marca a contrução de Mirtes para a terceira mulher, talvez a mais desamparada e que mais fortemente denuncia a falência da sociedade patriarcal, construída sobre valores de produtividade e eficiência.

Autor em busca da comicidade feminina

Abreu diz que há tipos cômicos, como a fofoqueira, mas frutos de visão masculina.

Em mais essa peça escrita especialmente para a Fraternal Cia. - As Três Graças -, Luís Alberto de Abreu tinha com objetivo inicial a pesquisa do que seria a comicidade feminina. "Ainda é uma incógnita. Existem tipos cômicos, como a fofoqueira ou a virago, mas são mesmo criados a partir de características femininas? Ou de uma visão depreciadora de uma sociedade patriarcal?" questiona Abreu.

Por que o cômico? Essa é a marca de sua parceria com a Fraternal, a criação de peças que dêem continuidade à chamada Comédia Popular Brasileira, iniciadas com Martins Pena. Mas sua pesquisa sobre o cômico feminino vai além. "Pessoalmente não quero mais trabalhar sobre o herói guerreiro. Nada contra, são ótimos, criados à luz da razão, mas essa dramaturgia de vertente masculina está sendo feita há séculos. Para mim chegou o momento de ruptura", diz Abreu.

Em As Três Graças, o personagem vivido por Aiman Hammoud inventa uma mitologia feminina, inversão tosca e bem humorada do mito priápico da criação, espécie de reparação de outra inversão, muito antiga. "Só agora a antropologia começa a investigar a transformação de milenares mitos matriarcais em patriarcais. Pouco sabemos dessas sagas ligadas ao feminino porque existiram em sociedade ágrafas. Restou quase nada, algumas esculturas de deusas. O grande feito da sociedade patriarcal foi soterrar como obscuridade toda irracionalidade".

Mas como ele aponta no desfecho de As Três Graças, o que foi soterrado volta a brotar da obscuridade. As profundas transformações do papel da mulher nos últimos 50 anos já se refletem na organização social. A preocupação com a vida do planeta e o estatuto da criança são exemplos do "feminino" na cultura. "Com certeza, a figura da grande mãe, que gera e conserva, começa a se impor sobre  os valores patriarcais de guerra e expansão, produção e eficiência, força e competição".

Importante entender, aqui, feminino e masculino não como gênero, mas forças que agem sobre os seres humanos e interferem em suas formas de estar no mundo. "Toda sociedade tem seus mitos e arquétipos. Com certeza, alguns já estão sendo detectados, mas ainda não foram elaborados", diz Abreu. "Quando Ibsen criou a Nora, de Casa de Bonecas, aquela mulher já existia, mas ainda não fazia parte do imaginário coletivo, era um proto-arquétipo".

Até onde se sabe, ainda não surgiu no palco uma personagem correspondente à mulher e ao homem contemporâneos na plenitude do termo, ou seja, aqueles já libertos de muitos valores patriarcais. Um novo cômico feminino - criado a partir dos defeitos risíveis de uma nova mulher, longe dos clichês sobre a mulher que, atualmente,enchem o palco de comédias supostamente femininas - ainda não surgiu, nem mesmo na peça As Três Graças.

"Está só apontado ali", admite Abreu. Antes de mais nada a matéria-prima recolhida pelos atores, entrevistas com mulheres pobres, era mais dramático que cômico. "O que fiz foi tentar ligar essas figuras femininas perdidas num mundo patriarcal". Uma das personagens "lembra o que não viveu", sua memória guarda ecos de uma outra sociedade, matriarcal. "Talvez a personagem da noiva se aproxime mais do que poderia ser uma outra comicidade, mais ligada à ternura, ao tipo da tola que é sabia, talvez. Ainda está embrionário".


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