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A História de Muitos Amores

Picadeiro que rima amor com dor


O Estado de São Paulo - Caderno 2
Beth Néspoli - 10/08/2009

Texto do início da carreira de Domingos Oliveira cai nas mãos da Cia Fraternal, que mistura gêneros com total habilidade.

Leve lenço para a comédia A História de Muitos Amores porque é espetáculo para rir e também chorar. Mas não espere humor rasgado nem choro melodramático, apesar da ambientação circense e dos recursos da comicidade popular utilizados pela Fraternal Companhia, reponsável pela montagem. "Não é uma explosão de riso", afirma o diretor Ednaldo Freire. Nem de choro. Tudo é mais sutil. Nessa peça, o circo é apenas espaço poético de uma fábula inspirada um tanto no cineasta Ingmar Bergman, outro tanto no dramaturgo Alfred de Musset, influências assumidas pelo autor Domingos Oliveira, que estará na estreia hoje à noite, para convidados. A montagem inicia na quinta-feira sua temporada, grátis, no Teatro Popular do Sesi.

Como assim? Domingos Oliveira no picadeiro? Parece mesmo difícil associar uma comédia ambientada num circo, imaginário ou real, com a criação artística desse cineasta de Todas as Mulheres do Mundo, que consagrou Leila Diniz, ou filmes mais recentes como Separações e Amores. Mas basta um olhar atento para detectar sua assinatura na forma como trata com nobreza e dignidade a dor amor, jamais banalizada, mesmo nas cenas de encontros e desencontros em que predomina a leveza. E mais. O jovem cinéfilo abre ainda espaço para valorizar o amor pela arte, grandioso, e a lealdade intrínseca à amizade. Há uma despedida, viril e dolorida, entre dois homens apaixonados pela mesma mulher, de cortante lirismo.

Domingos é cineasta e também dramaturgo e diretor teatral. Essa sua peça - a primeira encenada profissionalmente e por ele próprio dirigida em 1964 (leia abaixo) - foi descoberta por Ednaldo Freire quando ainda atuava no teatro amador. A fraternal surgiu em 1993 e, desde então, manteve uma parceria constante com Luís Alberto de Abreu, sempre na busca de sedimentar uma linguagem que pudesse ser chamada de Comédia Popular Brasileira.
"Mas agora Abreu estava com muitos compromissos e decidimos dar um tempo.

Diante disso, nossa primeira idéia foi visitar textos esquecidos da dramaturgia brasileira", conta Freire. Lembrou da peça de Domingos de "sofisticada simplicidade", matéria-prima para brincar com a linguagem há anos experimentada. "Tem apartes, triangulação, gags, toda a engenhosidade da linguagem cômica popular. E também a ingênua, o galã, personagens típicos e também arquetípicos, porque o prólogo já prenuncia a ambiguidade presente todo o tempo entre a representação e o real, entre o que é cena de circo-teatro e o que é vida dos integrantes do circo".

Aiman Hammoud interpreta Portobello, personagem inspirado em Sérgio Britto, como conta Domingos Oliveira, no que ambos têm de amor profundo à sua arte. O circo é mambembe, a lona é furada, mas ele não o vende nem mesmo quando a oferta o permitiria comprar um ainda maior e melhor. Até o dia em que... Bem,não antecipemos a história. Fernando Paz interpreta o palhaço Pimpão que será o protagonista da fábula cara ao autor, da paixão que nasce e cresce sem que os envolvidos se deem conta. Edgar Campos faz o tipo cômico, o trapezista fortão que tem, digamos, uma lentidão de raciocínio, por quem é apaixonada a filha de Pimpão, interpretada por Luciana Viacava.

Isadora Petrin (sim, ela é parente do ator Antonio Petrin, neta dele) e Marcio Castro encarnam respectivamente a advogada Gavião e o empresário que quer comprar o circo. Mirtes Nogueira é Ângela, a mulher que vai desestabilizar as relações e detonar toda a trama ao entrar para a trupe. Alguém falou que o grupo trabalha com recursos que já domina? Não é bem assim. Na atuação de Mirtes aparece o primeiro desafio. Quem acompanha as montagens da Fraternal sabe que ela faz sempre o papel da 'esquentada', a mulher brigona.

"Dessa vez eu não brigo, tenho de ser doce e terna. Nossa, foi difícil no começo, ainda é", conta a atriz. E tem mais. Há muito o grupo vinha se exercitando na linguagem narrativa. Cada vez mais os espetáculos ganhavam a forma de contação de histórias, feitas pelos atores diretamente para a platéia, intercaladas com cenas vividas. "É uma delícia essa novidade, o teatro dramático", brinca.

O ensaio, acompanhado pelo Estado, faz pensar numa montanha russa. Ora o tom é francamente farsesco, ora é dramático e veradeiro, ora profundamente lírico, ora beira o trágico, como no desfecho. Mas mesmo no 'grand finale' ainda ali há tempo para o autor puxar o tapete do público numa virada digna dos melhores truques circenses. "Nem o domingos conseguiu executar o que ele escreveu para essa cena", conta Ednaldo. Mas a Fraternal vai tentar. "Vamos usar uma espécie de gancho chamado 'gato', um instrumento náutico, diz Aiman. Nos barcos ele é usado para mudar as velas de lugar, pode funcionar com a lona do circo. "Ainda não sabemos se vai dar certo, o público vai conferir na estreia", diz Ednaldo.

Se a peça foi um fracasso na primeira montagem, em 1964, agora tudo pode mudar. "Não era uma obra engajada como se esperava na época", argumenta o diretor. Bem, há sempre algo de imponderável no teatro, mas 45 anos depois, talvez esse texto tenha encontrado sua trupe e seu público. Quanto ao autor, esse cumpriuo vaticínio do crítico teatral Fausto Wolff que escreveu na época em análise do espetáculo sobre o jovem autor e diretor Domingos Oliveira: "Esse rapaz vai longe, se o circo não cair sobre sua cabeça".

Com a palavra o autor

O circo dessa peça é imaginário, espaço poético. Nem lembro muito do texto, mas sei que há nessa peça uma fábula minha, que prezo muito, do homem e da mulher que se apaixonam brincando, jogando. Sem intenção, tornam-se cúmplices, amigos e, de repente, descobrem que o negócio é com eles, estão apaixonados. Essa fábula eu adoro. Sei também que busquei a comédia comovente. Naquele tempo eu já intuía o que me guia até hoje: o que mobiliza e enobrece o riso é a lágrima, sem ela o riso é bastardo. (Domingos Oliveira)

"Era 1964 e ninguém queria saber de risos, só de engajamentos políticos"

Domingos Oliveira ouviu surpreso o pedido de liberação de direitos autorais para a montagem de A História de Muitos Amores. "Foi munha primeira peça profissional, ninguém nunca mais se interessou por ela". Ele próprio dirigiu o espetáculo que estreou no dia 8 de janeiro de 1964 no Teatro Maison de France, no Rio, com equipe grandiosa - Sérgio Britto, Napoleão Moniz Freire (1928-1971), Milton Moraes (1930-1993), Yan Michalski (1932-1990), entre outros no elenco, Lelila Diniz (1945-1972) na assistência de direção e cenário de Gianni Ratto (1916-2005). Detecta a influência do cineasta Ingmar Bergman na atmosfera da peça, especialmente do filme Sorrisos de uma Noite de Amor (1955), e do dramaturgo romântico Alfred de Musset (1810-1857). Mas se inspirou mesmo em Sérgio Britto ao criar Portobello. "Ele é o cara. Convivi muito com ele mais tarde. Uma vez me disse uma coisa que desde então me serve na vida: um homem tem de ser maior do que seu sofrimento. Ele é assim, um homem capaz de suportar qualquer revéz", diz Domingos.

"Minha formação verdadeira não é de escola, mas do Grande Teatro Tupi", afirma sobre o programa de teleteatro dirigido por Britto. "Provocava medo e fascínio acompanhar aqueles caras perigosíssimos. Vi todo Ibsen, Pirandello, O'Neil. Eu era amador e ia até lá na TV pedir ao Sérgio para ler os meus textos. E toda vez era a mesma coisa, a peça da semana era a melhor do mundo, e ele realmente sentia assim. Ele era muito inteligente, mas tinha uma certa ingenuidade com a criação, como Portobello - um amor tão grande pelo que faz que não consegue enxergar ao redor. Por isso, apesar de eu ser um garoto, meu entusiasmo o conveceu a atuar na minha peça. E foi um fracasso. A época, pouco antes do golpe militar, era inadequada. E eu não sabia dirigir. Botei todo o meu dinheiro na montagem e tomei prejuízo. Perdi tudo".


O QUE SE DISSE

" A História de Muitos Amores propõe um mundo feérico, de jogo abstrato, no qual pessoas repetem gestos e brincam de amor, mas como que dança sobre o abismo".
João Bithencourt
(1924-2006)
Autor e diretor teatral


(c)2007 Fraternal - Ligue:(11) 8114 5600 fale com o Aiman 
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