Em meio a uma ninhada de personalidades fortes, Zeus teve também três filhinhas de perfil mais delicado, cuja presença concedia aos mortais os dotes de sedução, beleza e felicidade. A Igreja Católica, exímia na arte de tramar sincretismos, vinculou esse trio harmonioso, porém portador de benesses mundanas, ao ideário místico. Desse modo, as Graças deixaram de ser divindades mitológicas e passaram a representar dons espirituais outorgados para tornar menos áspero o caminho salvação cristã. Herdeiras dessa dupla atribuição de significados, as personagens do espetáculo As Três Graças partilham ainda a posição modesta que as figuras originais ocuparam no panteão grego. A Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes foi buscá-las no território onde vive a população pobre, em geral migrante, que constitui a maioria desta metrópole.
A fonte sociocultural do texto escrito por Luis Alberto de Abreu a partir de uma pesquisa do grupo não parece, contudo, substrato dominante da composição ficcional. Seguindo uma vereda diferente da comédia popular da sua primeira década, o grupo, sempre dirigido por Ednaldo Freire, investiga neste trabalho campos abstratos que dão origem às formalizações tradicionais da cultura, seja ela popular ou erudita, nascida da pobreza ou da afluência. A reflexão engloba também o processo de criação deste espetáculo apresentado ao público sob a forma de um registro documental dos ensaios e há, de um modo geral, na narrativa e na composição do espetáculo, a memória da superposição de fontes, traços visíveis da costura de diferentes estilos e a alternância deliberada de estados anímicos dissolvendo as categorias do trágico e do cômico.
Embora os incidentes concretos que pontuam a rememoração das três personagens da peça sejam comumente associados ao desvalimento das mulheres pobres, o que prevalece na representação é a ressonância afetiva dos episódios. O pai ameaçador ou indiferente, o amante volúvel e, de um modo geral, o sentimento de pertencer a um gênero vulnerável aos caprichos do sexo oposto são, nesta perspectiva, uma contestação feita às cosmogonias fálicas. Ainda que visto e recontado pela ótica feminina, o mundo continua sendo um lugar onde os homens avultam por meio da dominação ou da ausência.
Suaves, quase pura nostalgia na sua função de divindades benéficas, as três protagonistas se completam porque aspiram, de diferentes formas e a partir de experiências prazerosas ou terríveis, à integridade da união entre o masculino e o feminino.
De qualquer forma ainda que não ganhem a parada da queda de braço entre os sexos, as mulheres do espetáculo ganham o domínio temporário do palco. O elenco masculino faz figuração, apoio e personagens característicos que, de um modo geral, funcionam como animação e ornamento. A maior responsabilidade da ala masculina é assumir as tarefas metateatrais. Teorizar sobre a arte cênica tornou-se, aliás, uma das marcas distintivas deste grupo batizado na religião do épico. Aiman Hammoud, sempre um ator superlativo porque capricha na variedade de intenções e é capaz de entonações sutis, disfarça bem a parte menos interessante do texto que é o trecho em que se justifica a substituição do pênis pela vagina nos mitos de origem. É uma explicação simplória e esticada para aproveitar o aspecto farsesco da substituição e há mais graça no ator do que no texto.
Veterana fundadora do conjunto e por muito tempo minoria feminina em um grupo estável onde os homens foram mais perseverantes, Mirtes Nogueira trabalha desta vez com mais três atrizes incorporadas ao grupo para a criação deste espetáculo. Anos de trabalho contínuo, aperfeiçoamento técnico e uma vocação para traduzir na dimensão exata sentimentos e percepções delicadas em meio ao tratamento cômico distinguem sua personagem e a tornam figura central do espetáculo. No plano da composição, no entanto, as três narrativas se equivalem como uma seqüência épica, sem hierarquia prevista de temas ou densidade dramática. Com matéria de peso equivalente, as outras atrizes fazem bem suas personagens e contracenas e indicam, pela homogeneidade do preparo e dos resultados, a maturidade do grupo como núcleo de preparação de intérpretes.
Luiz Augusto dos Santos responsabiliza-se pelo cenário, figurinos e adereços e faz tão bem seu trabalho que mal notamos sua laboriosa intervenção.Espetáculos criados por um coletivo funcionam melhor quando a visualidade parece emergir dos ensaios, concebida e resolvida enquanto se inventam a história, as personagens e se solucionam os problemas técnicos. Cenografia, roupas e adereços têm aqui virtudes da funcionalidade da economia e da beleza sóbria que não têm a intenção de sobrepor-se a outros apelos da cena. A bem da verdade, a Fraternal Cia. de Arte e Malas-Artes está mais velhinha e, talvez por essa razão, menos espalhafatosa. Cai-lhe bem uma pitada de discrição.
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