Memórias, Inocência e Sonho
Crítica: Memórias, Inocência e Sonho Na peça ''As Três Graças'', a Companhia Fraternal mostra virtuosismo no uso da linguagem teatral e consegue estabelecer um diálogo produtivo com o público Peça é a mais ousada do grupo Helio Ponciano Revista BRAVO! | Setembro/2008 |
Uma das parcerias mais bem-sucedidas entre um dramaturgo e um grupo de teatro, a colaboração entre Luis Alberto de Abreu e a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes, de São Paulo, rende desde 1993 um projeto apaixonante sobre a comédia popular brasileira. Apoiados em pesquisa, autor e atores vinham encontrando soluções no palco que conciliavam a "simplicidade" do universo retratado com o potencial da trupe. Com As Três Graças, elaborado a partir do depoimento de mulheres, a Fraternal encontrou um tema tão fértil quanto o de peças anteriores — como o mundo caipira (Eh! Turtuvia) ou a saga de migrantes de São Paulo (Borandá). Desta vez, aborda a condição da mulher em diferentes perspectivas.
No relato das três personagens femininas centrais surgem os pequenos dramas que compõem a peça. No primeiro depoimento, uma mulher com problemas de memória esforça-se para contar os sofrimentos com o pai violento; no segundo, uma jovem se diz tonta e aceita as traições do marido por achar a condição melhor do que a das solteiras que vivem "tropeçando em amargura"; por último, em "sua loucura mansa", uma russa separada da mãe sonha em reencontrá-la.
Desde o início, fica claro que, de fato, se trata da mais ousada criação do grupo. Simulando-se em cena as dificuldades enfrentadas para elaborar esta montagem, o ar de ensaio aberto pouco a pouco cede terreno às performances irrepreensíveis de cada ator, a números musicais precisos, ao desfile variado de tipos humanos em trocas ágeis de figurinos.
Maturidade Em vez de um mero painel pró-feminismo, o que se exibe é um apurado trabalho de linguagem em cima dos depoimentos originais. Esse trabalho está expresso em cenas como a do pai violento, que interrompe a fala da filha sobre ele e apresenta sua versão da história. Ou no episódio da russa separada da mãe, em que a personagem central é interpretada por duas atrizes, espelhando a jovem com a adulta. Em outro trecho, o mito da criação é narrado jocosamente pela ala masculina do elenco. São exemplos de um alto nível de encenação, conseqüência clara da maturidade estética da Fraternal. Os oito atores conseguem tornar produtivo o diálogo com o público, uma vez que o texto não fornece as explicações para os conflitos que são encenados, deixando o espectador livre para fazer sua própria interpretação. Por meio da sátira, eles brincam com as diferenças, revertem perspectivas e escancaram o que Abreu pinçou de suas três graças: a memória, a inocência e o sonho.
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