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Auto da Infância

Auto da Infância para todas as idades


O Estado de São paulo - Caderno 2 - Sábado, 04 de agosto de 2007 - Livia Deodato

Luís Alberto de Abreu assina a nova peça da Fraternal.

O cavalo-narrador entra em cena com medo de que alguém o vigie durante seu sono. O cachorro-narrador o acalma, que sete fadas brancas e outras sete negras estão chegando para saudar o seu sonho. Assim tem início o jogo de faz-de-conta que a Fraternal Companhia de Arte e Malas-artes estréia hoje, às 16 horas, no Teatro Aliança Francesa. Auto da Infância é a primeira peça do grupo a contemplar o universo infantil, ainda que os espetáculos anteriores fizessem brilhar os olhos de todas as idades.

"Não existe essa fronteira entre crianças e adultos. Apresentaríamos nossos espetáculos em qualquer horário", afirma o diretor Ednaldo Freire. O espetáculo Auto da Paixão e da Alegria, por exemplo, que volta ao cartaz também hoje, às 21h30, no Aliança Francesa, é adulto e recebeu quatro troféus no Prêmio Panamco de Teatro Jovem em 2008.

Trabalhando desde a origem da Fraternal há 12 anos, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu é quem assina mais uma vez o texto. Autor da adaptação da premiada série televisiva Hoje é dia de Maria, Abreu quer agora focar o seu trabalho nas figuras da criança e da mulher. "Enveredei por esse caminho porque vinha sentindo falta da abordagem infantil e feminina na arte, já que a cultura erudita e burguesa privilegia essencialmente o herói guerreiro, o homem", conta. Não por isso ele deixa de lado os temas clássicos abordados por qualquer literatura infanto-juvenil, que apresentam os dilemas de cada ritual de passagem enfrentado por toda criança.

O 13° espetáculo da Fraternal vem cheio de referências nacionais, que dizem muito sobre a cultura popular brasileira. Difícil vai ser segurar a platéia de crianças e adultos para que não suba no palco e se divirta com o elenco. Canções e brincadeiras como escravos-de-jó e pula-cela, mariometes feitas com latas, bules e botões, amparadas por vassouras de piaçava, pernas-de-pau e bonecões feitos de chita passeiam pelo palco, enquanto o menino Biel (Fernando Paz) enfrenta seus desafios.

Após ser proibido por seus pais de brincar - "na rua não pode, calçada é perigo, no pátio do prédio você cai e quebra o pescoço, fica em casa, mas não trepa nos móveis, não quebra as coisas, não me irrite, não corra, não grite!" -, o menino Biel dorme e sonha que seu pai (Aiman Hammoud) é um ogro e sua mãe (Mirtes Nogueira) é uma bruxa. Seu alívio não dura muito tempo, pois a empregada Ceição (Isadora Petrin) confirma o seu pesadelo: Biel havia sido raptado enquanto criança por ser predestinado. Ela lhe entrega uma carta escrita por sua verdadeira mãe, cujo conteúdo seria a única forma de ele reconhecê-la nesse mundão. Biel Foge de casa e encontra Céu (Márcia de Oliveira), com quem enfrentará uma série de aventuras.

Os fantasmas do ogro e da bruxa os perseguem durante boa parte da busca, inclusive antes de alcançarem o Mundo dos Padrastos, onde as crianças são exploradas no trabalho. "Desde o século 19 existe uma preocupação cultural com a criança, vide os contos de Hans Christian Andersen. Àquela época, os padrastos tinham essa imagem, de serem do mal. Hoje, as realações mudaram completamente. Pais podem ser padrastos - na concepção de dois séculos atrás - e padrastos podem ser pais. Para as crianças, aqueles que elas consideram pais devem apenas cumprir com os arquétipos que elas instituíram dentro de si mesmas", diz o autor.

A preocupação é obter êxito ao unir os elementos da cultura universal com o que eles significam na nossa cultura, atualmente. E, além disso, apresentar à criança o mundo em que está inserida, sem nenhum tipo de disfarce. " Muitos dizem que a criança deve ser preservada. Preservada de quê? Ela nunca foi preservada da violência, por exemplo, que está na vida real e na TV a todo minuto. Não devemos encobrir o mundo, mas sim revelá-lo e oferecer elementos para que ela encare esse mundo", opina Abreu.

Soluções divertidas foram encontradas pela trupe para dar ainda mais graça à montagem. Quando Biel e Céu chegam ao País das Crianças, por exemplo, são recepicionadas por anões, os governantes daquela nação. Os atores escondem-se atrás de telas e emprestam apenas os seus rostos e mãos para os corpinhos de bonecos embutidos na frente dessas telas. Ou ainda quando o juíz (Marcio Douglas) entra em cena para julgar o caso de Céu, a menina que ultrapassou a idade permitida para viver no País das Crianças, pois tem 8 anos: as mãos do ator transformam-se nos pés do juíz e o restante do corpo é escondido atrás de sua toga. Hilário.

As canções que ilustram cada etapa da aventura de Biel e Céu têm letras de Luís Alberto de Abreu e direção musical de Marcos Arthur. Os figurinos, o cenário e adereços funcionais e pra lá de criativos, que traduzem o vento, o sol e a chuva, foram pensados por Luiz Augusto dos Santos. Agora é só deixar levar-se para esse mundo encantado.


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