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Após fechar o ciclo dos Autos Fe

 

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No papel, nosso projeto era realizar uma série de entrevistas com migrantes de São Paulo que pudesse dar suporte a um enredo cômico que já havíamos estabelecido. Tratava-se de uma saga mítica, aparentada com Macunaíma, de Mario de Andrade, e nosso objetivo era dar continuidade à nossa pesquisa sobre a comédia e contemplar o imaginário popular sobre o ser humano que abandona o seu local de origem. Muitas das histórias populares começam com um herói e uma estrada que o leva a fantásticos mundos. E essa era a idéia primeira. Mas, como sempre acontece, o resultado do contato com os entrevistados e suas experiências mudou completamente os rumos do projeto. A saga cômica que pretendíamos tornou-se apenas uma das três sagas que nos vimos compelidos a criar para cobrir, pelo menos em parte, o rico material da pesquisa. Por outro lado, não foi possível manter todo o espetáculo apenas na clave cômica. A experiência humana dos entrevistados era múltipla e resolvemos ser fiéis a ela. O resultado foi essas três sagas populares: Tião, Galatéa e Maria Déia, três visões sobre o processo migratório, esse grande movimento de massas humanas que tem sido uma das principais características do mundo contemporâneo. Não se pode falar em contemporaneidade sem levar em conta o migrante dos vários quadrantes do país e sua cultura. Essa cultura dinâmica e renovadora, ainda circunscrita às periferias das grandes cidades, e que será, com certeza, um dos fundamentos de nossa identidade no amanhã.

Optamos por histórias simples, sem excesso melodramático ou farsesco, no sentido de ser fiel à imagem, desprovida de lances heróicos, que os migrantes tem de si mesmos. Talvez sejam heróis de outro tipo, de outro gênero. Heróis sem consciência da importância de seus feitos. Ao contrário do herói emblemático de grandes feitos, migrantes são inúmeros heróis de pequenos feitos, diários, aos quais não é dada importância. Mas, se a característica básica do herói é se contrapor ao destino e às profecias trágicas, o povo brasileiro tem feito isso diariamente, há muitos anos. E finalmente, “saibam e fiquem atentos: por mais banal que seja a personagem/ qualquer vida humana é poesia/ e qualquer poesia é ensinamento.”


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